domingo, 26 de julho de 2020

PRAGA DO PADRE E PORTO DAS TORRES







PRAGA DO PADRE E PORTO DAS TORRES


               
Durante o primeiro império surgiu no “Sítio das Torres” uma ideia portuária porque aqui era o melhor e mais estratégico lugar no país para construção de um grande porto marítimo. Mas, felizmente, para proteção das nossas belezas naturais, tal ideia não vingou. Depois, no segundo império, esta ideia voltou forte, com projeto e estudo das marés, porém, felizmente, outra vez, o porto da “Capela de São Domingos das Torres” também não vingou. Mais tarde, na república, que já nasceu velha, a ideia, de novo, tomou corpo e forma, com novo projeto, levantamento topográfico e estudos de profundidade da costa litorânea. Houve até o início das obras de um porto auxiliar na praia da Guarita. Contudo, o porto da “freguesia de São Domingos das Torres”, mais uma vez, não vingou. Na Nova República, com muita discussão política e promessas de desenvolvimento para a região, a ideia do porto marítimo para a “Villa das Torres” evoluiu muito, todavia, depois, mais uma vez morreu. Tio Sam e a Rainha o levaram para Rio Grande. Lugar impróprio para um porto marítimo e eles sabiam disso. Na segunda década do século passado tinha na “Villa das Torres” um pároco que estava afrente do seu tempo. Costumava, ele, nas horas vagas, frequentar um terreiro onde os pobres nativos faziam seus batuques. Por este motivo a “dita elite economicamente dominante e conservadora” não concordou com essa atitude do padre e reclamou para o bispo. Falam por aí que o bispo determinou para castigarem o padre com uma “tunda de laço” e acrescentou:  Depois eu mando outro padre para vocês. O pároco foi expulso da paróquia. Todavia, ao ir embora teria dito: “Nunca vi, em todo o mundo, uma classe dominante tão atrasada”. Com o passar do tempo o folclore modificou as palavras do padre que ficou assim: Torres tu és (atrasada) e de Torres não passarás, e o porto não há de sair. Esse dizeres ficou conhecido como a Praga do Padre. E o padre, quando foi embora, não se benzeu, mas disse apenas: Saravá! Diz o dito popular que praga de padre dura cem anos. E a voz do povo (Vox Populi) é a palavra de Deus, portanto, a verdade. Contudo os cem anos estão passando e em breve a praga estará com sua validade vencida. Talvez por isso, como uma maldição surgida do fundo do mar, a ideia do porto da cidade de Torres voltou. Temos, de novo e urgente, que chamar um padre, mas não um padreco qualquer, moderno e metido a namorador, porém um padre à moda antiga. Um verdadeiro capa preta que esteja à frente do seu tempo e seja um macumbeiro de verdade para que o porto das Torres vire uma Lenda.  Saravá, Meu Pai!

Adaptado do Livro: Torres História em Crônicas __ Bento Barcelos da Silva

A ESCRAVA QUE FOI PRINCESA


A QUE FOI PRICESA





A ESCRAVA QUE FOI PRINCESA

Nydangy nasceu na África em 1825. Era uma princesa negra, filha mais velha de Yabá-Yeyê e ia suceder sua mãe no reinado matriarcal de sua pequena tribo da grande nação Nagô. Porém, ela foi sequestrada por outros negros e vendida para traficantes brancos. Ficou separada da rainha, sua mãe e de seu futuro pequeno reino. Veio parar no mercado de escravos da grande Porto Alegre. No ano de 1847, quando estava com vinte e dois anos, tornou-se propriedade do pastor imigrante alemão Adolfo Leopoldo Voges, líder político e espiritual da colônia protestante dos Três Forquilhas. Com seus senhores aprendeu o idioma alemão fluentemente e depois junto com eles o português. Lia, falava e escrevia corretamente nesses dois idiomas. Conservou ainda o yorubá, sua língua nativa, mantendo assim viva a cultura da sua gente em uma terra estrangeira. Tinha um terreiro, no pátio do engenho do pastor, onde fazia seus batuques frequentado por negros e brancos. Foi parteira, curandeira e uma espécie de sacerdotisa. Fazia também rezas e benzeduras, e cuidava com carinho de todos os doentes, pretos ou brancos. Receitava chás e xaropes que ela mesma preparava com folhas e flores silvestres. Fabricava afrodisíacos feitos com ovos de pássaro, mel de abelha e raízes medicinais. Era também excelente cozinheira e doceira. Ficou conhecida como Iyá Maria e Mãe Maria. Nydangy morreu em 1894 no Vale Três Forquilhas, aos sessenta e nove anos, vitimada por cólera que dizimou a região. A escrava que foi princesa viveu na nossa terra e agora é Lenda para nossa gente.   
Adaptado do Livro: Vale do Mampituba  __ Bento Barcelos da Silva

AS PUTAS DE TAQUAREMBÓ






AS PUTAS DE TAQUAREMBÓ




Na virada da segunda para terceira década do século dezenove, chega ao distrito das Torres uma leva de índios guaranis prisioneiros de guerras e também alguns presos sentenciados. “As mulheres, como disse o poeta, traziam filhos e algemas nos braços e na alma lágrimas e fel”. Os homens vieram para construir a Capela, o fortim e estradas pelo interior. Alguns deles foram feitos soldados das Milícias Sertanejas com a finalidade de caçar os bugres. A maioria, no entanto, continuou prisioneiros. Saint-Hilaire, o naturalista francês, que os encontrou pelo caminho, quando por aqui passou, em direção ao sul, disse: “As mulheres são feias e desavergonhadas”. Se este escriba bem entendeu, eram mulheres sofridas e que tinham em oferta as suas vergonhas. Eram as chinas, as putas de Taquarembó. Mas porquê Taquarembó e porquê foram consideradas chinas? Taquarembó era um rio no atual Uruguai, nas margens do qual elas foram feitas prisioneiras, e putas por tanto terem sido estupradas pelos ditos cristãos. O grande observador da natureza viu que elas traziam filhos e algemas nos braços, mas não prestou atenção que essas mulheres também podiam chorar. Elas vieram para se casar com os milicianos e presidiários na tentativa das autoridades de formar um núcleo urbano no Sítio das Torres. Essa tentativa, porém, não deu certo, porque para os filhos da terra, não tinha terra. A região naquele tempo já era um verdadeiro latifúndio e os milicianos na maioria desertaram e os prisioneiros, ou fugiram, ou morreram na tentativa de fuga. Como consequência as bugras não casaram. Para elas, portanto, só restou “putiar”. Nossas primeiras mães, segundo RRRuschel. Agora elas são da nossa terra Lenda para nossa gente

Antônio Frederico de Castro Alves _ Navio Negreiro

Adaptado do Livro: Vale do Mampituba __ Bento Barcelos da Silva

Caingangues e os estrangeiros

CAINGANGUES E OS ESTRANGEIROS




Eu sou o índio Manoel dos Santos _ “Índio Guarani Missioneiro” _ e vou contar o que sei: Quando os primeiros imigrantes alemães protestantes chegaram ao Vale dos Três Forquilhas_, "Uma choupana estava lá com aparência vistosa". Era o Templo Sagrado. Havia outras cabanas. Foram construídas pelos índios caingangues, vindos da aldeia dos Três Pinheiros e requisitados para esta tarefa de apoio aos colonos. Assim nasceu a colônia dos alemães protestantes de São Pedro de Alcântara dos Três Forquilhas no Presídio das Torres. "Foi o índio guarani missioneiro Estebam dos Santos que conseguiu reunir quase duas dezenas de índios caingangues liderados pelo cacique Aivoporã". No começo, os selvagens, um povo dócil são uma força de apoio muito grande. Estebam “Missioneiro” era amigo do cacique Aivoporã. Eles se conheceram bem antes da chegada dos estrangeiros. Eu sou filho de Estebam “Missioneiro”. Meu pai foi prisioneiro de guerra e veio para o Sítio das Torres com outros prisioneiros para construir o Baluarte Ipiranga e a Capela. Ele e os outros prisioneiros de guerra falavam o guarani e o espanhol, e depois aprenderam o português. Eu também conheci Aivoporã _ Cacique dos Caingangues. Naquele tempo eu era guri pequeno. Eles, os caingangues, sempre moraram aqui e dominavam todo esse vale _ Vale dos Três Pinheiros. Os colonos chegaram depois, muito tempo depois. Foi Estebam “Missioneiro”, meu pai, que recebeu a tarefa do coronel de buscar o cacique e seus guerreiros para ajudar os alemães a construir suas choupanas. E eles, os caingangues, construíram a “Choupana Templo” e outas mais para os estrangeiros, e também permitiram a divisão de suas terras. Porém, agora não existe mais bugres em Três Pinheiros. Eles lá moraram até o ano de 1847 e eram índios caingangues. Os bugres ficaram cruzando pelos fundos das propriedades dos Alemães. _ As mulheres com os filhos pendurados nas tetas e as vergonhas à mostra; os homens com arco, flechas e até facões, e os “balangandãs” balançando ingenuamente. Ali sempre fora o caminho deles. Porém, agora, os alemães começaram a criar obstáculos. Não queriam que os gentios passassem por suas propriedades. Surgiu um mal-estar. Tinham medo. Os imigrantes vendo os índios andando nus, dentro de suas propriedades, não saiam mais de casa sem levar uma espingarda a tiracolo. Sentindo-se ameaçados só restou para os gentios se mudarem para mais longe e foram subindo a serra. Um dia um sesmeiro luso brasileiro com um papel na mão, uma bíblia debaixo do braço, muitos capangas fortemente armados e cães bravios, veio para tomar posse da terra dos caingangues, a aldeia dos Três Pinheiros. Fez uma chacina no local onde morreram o cacique Aivoporã e muitos dos seus valentes guerreiros. Seus corpos foram jogados em um perau. Os que sobraram continuaram subindo a serra, indo morar cada vez mais longe e mais no alto. Um dia desapareceram para sempre. Foram em direção aos felizes campos de caça, na Terra dos Espíritos. Eu casei com Madalena Menger e aprendi o alemão e contei esta história para ser uma Lenda.

Adaptado do Livro: Vale do Mampituba __ Bento Barcelos da Silva

ALEMÃES CATÓLICOS E O FRAMCÊS





ALEMÃES CATÓLICOS E O FRANCÊS




Quase dois anos após a chegada dos imigrantes alemães, os colonos católicos romanos, são jogados na região do Rio Verde nuns baixios. Havia entre eles quatro franceses solteiros, agitadores e de origem desconhecida. Os colonos, “jogados”, são pegos por uma enchente e se revoltam. Um de seus principais líderes é um indivíduo danação francesa, de origem desconhecida, agitador e solteiro, de nome Louis. Era empregado da polícia do Presídio _ as Milícias Sertanejas _ cuja finalidade era caçar os bugres. Os colonos revoltosos vão em direção aos morros mais ao sul, entre as lagoas do Morro do Forno e do Jacaré. Terras requeridas e cobiçadas pelo comandante geral do Presídio de São Domingos das Torres, onde o mesmo já tinha um engenho com escravos que produzia cachaça. Temos aí, talvez, o primeiro movimento de colonos invadindo terras na região. Na verdade a maioria, mesmo assim, não ficou satisfeita com as terras invadidas e reclamam. Contudo, a autoridade maior, na capital, disse apenas: “Ou vocês ficam onde estão, ou voltem a pé para o outro lado do mar”. Uns fugiram, outros foram presos, mas a maioria ficou por falta de alternativa. Assim nasceu a Colônia dos Alemães Católicos de São Pedro de Alcântara no Presídio de São Domingos das Torres. Entre os colonos um indivíduo francês de nome Marie, solteiro, de origem desconhecida e agitador, resolve escrever uma carta para o comandante militar na capital da província e a confia a um alto oficial em passagem pelo Presídio. O francês é traído pelo oficial que entrega a carta ao comandante do Presídio. Este o manda prender e o envia escoltado para Porto Alegre. A escolta leva também uma carta que diz: “Mando preso o colono, solteiro e agitador, Bouldier, da nação francesa, empregado na polícia desta colônia, porque é instrumento que os outros se tem valido para fazer requerimentos em língua”. Pateticamente está escrito na carta: "Que tal Vossa Exc.ª mandar esta praga para o exército ('guerra'), só assim nos livraremos desta peste". "Nós, em, senhor governador"?! Tudo é muito estranho. Há quem diga tratar-se de uma queima de arquivo. Mas por que queimar este arquivo?! Nunca mais se ouviu falar em Louis Marie Bouldier, empregado na polícia da colônia, agitador e solteiro, da nação francesa, e de origem desconhecida, que escrevia cartas em língua e estava infiltrado entre os alemães católicos, Era um de seus principais líderes. Há quem diga que o francês costumava ficar ao lado dos mais fracos e, incerta fonte diz: “Parece que queriam transformar os colonos em escravos”. Deve ser engano, todavia... Os outros franceses não deixaram rastros para a história. Louis Marie Bouldier tornou-se um mártir e a sua história uma Lenda.

Adaptado do Livro Vale do Mampituba: __ Bento Barcelos da Silva

BAIANO DO CEARÁ





BAIANO DO CEARÁ


Cândido acreditava ser desertor da Guerra do Paraguai e junto com quatro parentes abandona o campo de batalha. Tonho, Pedro, José e João são os seus companheiros. Veio parar no Vale dos Três Forquilhas e tornou-se homem de confiança do líder religioso e do líder político da colônia alemão protestante. Atuou na área de segurança pública local e foi um líder maragato muito respeitado pelos homens e amado pelas mulheres. Era cearense, mas foi apelidado de baiano _ Baiano Candinho. Porém, foi marcado para morrer por ser oposição ao governo. Iluminado pela luz mortiça de uma pixirica, diz a Lenda: “Lá no sertão do distante e seco Ceará, quando a parteira levantou a criança nos braços, magros e fortes, para dizer que era um menino, a velha e enrugada feiticeira que acompanhava o ritual, colocou em seu pescoço, amarrado por um barbante, um patuá e proferiu as seguintes palavras: Será um homem muito corajoso e valente, e frente a frente ninguém terá coragem de enfrenta-lo. Para vencê-lo (prender, ou matar) só se fizer traição muito bem feita”. Depois, com o tempo, diziam que o patuá, envolto por um escapulário sebento, o protegia da morte. Mas a traição foi bem feita, pois, na Noite dos Reis, um bando de assassinos se misturou com os homens das cantorias e quando Candinho Baiano esticou o braço, para entregar a oferenda ao Menino, as mãos fortes e assassinas de João Macaco o seguraram, enquanto a mão preta e veloz de Negro Custódio, na noite escura como um relâmpago sem luz, levou uma faca afiada contra a garganta de Candinho Baiano. Ele foi vilmente degolado em tempos de paz. Guedes Francês foi rápido ao se agachar e levantar a cabeça, sem vida, daquele corpo ensanguentado, coberto de orvalho, naquela Noite Sagrada. E daquele cadáver, esparramado no chão, cortou o cordão e retirou o patuá para que Candinho Baiano realmente permanecesse sem vida. Agentes do governo usaram o nome de Deus para matá-lo. Feriram o sagrado. Um vidente cantor viu Candinho Baiano subindo ao céu junto com o Menino que segurava sua mão enquanto ascendiam. Os outros baianos também morreram assassinados. Vinganças de guerra em tempo de paz. Lenda para nossa gente.
Adaptado do Livro: Vale do Mampituba __ Bento Barcelos da silva

A BUGRA DELORE







A BUGRA DELORE


Abela Delore era uma índia da “Nação Guarani”, que, com Pepito seu pequeno irmão, procurava, numa noite escura e triste do Paraguai, seu pai e irmãos entre os mortos na Batalha do Avaí, durante a Grande Guerra. E eles estavam lá e, lá, eles estavam mortos. Petrificada e muda fica ali, debaixo das estrelas, sentindo na boca o gosto amargo de suas lágrimas salgadas. Embaixo de seus pés havia "mil" cadáveres. Parecia estar em outro mundo. Um mundo amargo, destruído pela insanidade humana. De repente, outra vez, a outra amarga realidade do amargo mundo real. Entre os mortos, que eram muitos, um resmungo. Aproxima-se e vê um cão lambendo um soldado brasileiro. O soldado era um “brummer”, resmungando em alemão. Ele estava gravemente ferido por uma lança paraguaia que o varou, mas ainda respira, geme e resmunga. O nome do soldado é Carlos Daniel Gross, de Três Forquilhas (no futuro, ficará conhecido como, “Paraguaio Gross”). O soldado e Valente, o seu cachorro, são tratados por Abela Delore e Pepito por alguns dias e depois entregues para o exército brasileiro. Tempos após, Paraguaio Gross chega a Três Forquilhas montado em Hidalgo e na garupa Abela Delore, a índia paraguaia. Mais atrás a égua Milonga com os "trens" e Valente, o cachorro veterano de guerras com suas muitas cicatrizes. Pepito que os acompanhava, sentindo saudades de sua terra, voltou do meio do caminho. O vencedor da guerra diz que sua vida pertence à Delore que o salvou e com ela se casa. O casamento é uma grande festa na colônia. Pedro Baiano é seu cunhado e Candinho Baiano seu capataz. Mas Paraguaio Gross quando volta da guerra, volta doente e vive pouco, deixando Abela Delore e seus filhinhos pequenos. Ela, a viúva, depois da morte do marido, adquire a doença dos nervos. Doa os filhinhos para os parentes de Daniel e de cima de um serro fica a mirar o horizonte. Sente saudades de sua terra, sua gente e de Pepito, seu irmão pequeno. E numa terra estrangeira ela chora, enlouquece e também morre cedo. Agora sua história é contada como Lenda para nunca mais ser esquecida.

Adaptado do Livro: Vale do Mampituba __ Bento Barcelos da Silva