terça-feira, 19 de maio de 2015

Dizendo Adeus




              Conta-se que um rio nasceu no alto de uma enorme montanha e iniciou a sua jornada.

             Foi descendo pela encosta e pouco a pouco foi crescendo aumentando de volume. Projetou-se 
numa maravilhosa cachoeira e atingiu o sopé da montanha. Foi abrindo passagem entre árvores e
pedras, algumas mais facilmentes, outras com dificuldades. Admirava-se, ora de sua força, ora de
sua habilidade para contornar obstáculos. E crescia.

               Passou por planícies e por áreas ressecadas. Umedeceu-as dando-lhes condiçõesde colher
as sementes para florescerem e darem frutos. Matou a sede da terra, de povos, de animais e de pássaros. Conheceu outras corrente de águas e as reuniu em si, tornando se maior e mais fecundo. Os peixes se multiplicavam-se em suas águas. Era feliz!

               Certo dia, porém, foi despertado para uma realidade;  seu caminho seguia, inexoravelmente. para o mar. Chegaria o momento em que iria penetrar nele e, assim pensava, desaparecer para sempre.

               Pensou num meio de fugir dessa realidade. Mas não havia como saltar sobre o mar, nem tão pouco voltar atrás. Os rios não voltam. Ao fazer uma grande curva avistou o mar. Era enorme, parecia não ter fim. Teve medo.
             
                Contudo percebeu que este era o seu destino. E, temeroso, porém confiante, fez sua última descida. Entrou no mar.

                 Descobriu, então, a grande verdade; entrar no mar não é desaparecer, e sim tornar-se parte dele. o pequeno rio tornou-se parte do mar. Junto com tantos outros rios que haviam chegado de todos os cantos do mundo.

                Agora ele já não era só. Era parte de um todo, onde, de mãos dadas, todos eram UM.

                Desapareceu como um rio, renaceu como  um mar!

                                                       Evaldo A D'Assumpção _ PUC Minas 2001


terça-feira, 5 de maio de 2015

POETANDO: NUVEM

POETANDO: NUVEM: Aonde vais com Esse pesado fardo De sonhos Que tornam teus passos Tão pequenos? Aonde vais com Esse volume Tão grande de sa...

domingo, 3 de maio de 2015

O LÁPIS NA MATEMÁTICA





             Em Matemática um objeto imprescindível é o lápis, assim como é imprenscidível pararmos
 para refletir sobre o comportamento e seguir um método para melhor desenvovermos nossas tarefas.

                    Para entender issso você recebeu um lápis.

            Há cinco qualidades nele que, se você conseguir mantê-las, será sempre uma pessoa em paz
com o mundo.


                   "Primeira qualidade: Você pode fazer grandes coisas, mas existe uma Mão que guia seus 
passos,

                   " Segunda qualidade: De vez enquanto eu devo parar o que estou escrevendo, e usar o 
apontador. Isso faz com que o lápis sofra um pouco, mas no final ele está mais afiado afiado. Portanto,
saiba suportar algumas dores, porque elas o farão uma pessoa melhor."

                Terceira qualidade: O lápis sempre permite que usemos uma borracha para apagar aquilo que 
estava errado. Entenda que corrigir alguma coisa que fizemos não é necessariamente algo mau, mas algo 

importante para nos manter no caminho da justiça.

            "Quata qualidade: O que realmente importa no lápis não é a madeira ou sua forma exterior, 
mas o grafite que está dentro. Portanto, sempre cuide daquilo que acontece dentro de você."

            "Finalmente, a quinta qualidade do lápis: Ele sempre deixa uma marca. Da mesma maneira, 
saiba que tudo o que voce fizer na vida ira deixar traços, e procure ser conciente de cada ação."

               Que sua vida acadêmica e profissional seja regrada por esta virtude, a da constante reflexão.

                                      Taise, professora de Matemática.

           

             


quinta-feira, 12 de julho de 2012

" A VERDADE"

                                     " 27 de agosto de 1894"

                       Jornal " A Verdade" de 1° de setembro de1928                                          

         27 de agosto de 1984, uma  data  memorável nos fatos da história
republicana do sul do Brasil.
          Faz hoje 34 anos que ao alvorecer da memorável data que encima
estas linhas, foi esta cidade, então  vila,  assaltada com surpresa de  seus 
habitantes, por numerosos grupos de revolucionários, comandados pelos
famigerados Candinho Baiano e os  três irmãos Rodrigues, Manoel, José
e Godiano.
          Em um momento reuniu-se  pequeno  número de patriotas,  homens
destemidos e republicanos até  a medula dos  ossos  enfrentando intemera-
tamente os assaltantes,  na defesa da  praça, exposta a todo o  ataque dos
 revoltosos. Comandam estes abnegados  patriotas o Cel. João Fernandes
e seu irmão  Capitão Pedro Fernandes, este já a alguns anos desaparecido
do cenário desta vida terrestre.
          Os  defensores da vila  apenas atingiram o  pequeno  número de 25
homens,  ao passo que os  assaltantes  eram  em número  superior a   200
revolucionários.
          Sobrevivem a estes abnegados patriotas que não mediram sacrifícios
na defesa de sua terra o Coronel Fernandes, senhores Bernardino Campos.
Antônio  Teodoro,  Juvêncio Santa  Helena, Fidélis vieira e  outros,   cujos
nomes escapam a memória.
          Um mês antes do assalto inopinado à vila de Araranguá, os revolucio-
nários atacaram o Passo do Sertão,  segundo distrito deste município,   que
foi heroicamente defendido pela bravura  por um grupo de guardas-cívicos,
sob o comando do saudoso Alferes Damásio Machado.
          Nesse  tiroteio que durou  algumas  horas,  o inimigo  foi  rechaçado
destacando-se um guarda-civil, que expondo-se as balas dos encarniçados
revolucionários, avançou  para o campo  aberto, tiroteando os adversários,
sem lhes dar tréguas.
           Aqui  na vila o  inimigo não  conseguiu o seu  escopo, pois um fogo
vivíssimo  fê-lo  recuar precipitadamente, sem desalojar um só republicano
de suas trincheiras.
           Entre os defensores da vila, felizmente, não se registrou uma  morte.
Os assaltantes, porém, deixaram sem vida, no campo de batalha, 5 homens
e fugiram precipitadamente, levando vários feridos.
           Gordiano Rodrigues, um dos comandantes das força revolucionária,
morreu  valorosamente  sobre  uma  trincheira,  que  constituíra  ao  sul  da
vila, ponto preferido para o ataque a esta localidade.
           Em frente ao  Campinas  Hotel, onde  existia  um cemitério naquela
 época,  jazem os  corpos do  Capitão Gordiano  e  5 dos  seus  soldados
mais destemidos.
           Durante o ataque, as famílias e mais alguns homens tímidos, abando-
naram  seus domicílios  e  os homens  foram  internando-se nas matas e  as
famílias em  demandas da  Lagoa da  Serra,  Canjicas  e  outros  povoados,
onde se supunham ao abrigo dos assaltantes,
           O atual  encarregado  da estação  telegráfica,  que naquele tempo já
 exercia  as  funções  desse  cargo,  desmontava todas as noites o aparelho,
telegráfico,  comunicando-se, durante o dia, com o então  governador  Mo-
reira Cesar, pondo-o ao corrente dos acontecimentos.
            Ao anoitecer, o denodado telegrafista corria as trincheiras, animando
os seus companheiros de  defesa, com o  valor de patriota  abnegado e sem
temor.
           Felizmente  chega  à vila  um contingente  de 100 praças do 10° Regi-
mento   de  Cavalaria,  sob  o   comando dos  distintos  oficiais  do  exército,
tenente  Nolasco e Teodomiro e Alferes  Leocrácio,  Evaristo e  Rosas,  que
guarneceram  todos os  pontos expostos mais  facilmente os assaltantes revo-
lucionários.
           Mais tarde tivemos novas investidas de revolucionários rio-grandenses.
Esses,  porém,  quase nenhum mal nos  fizeram, porque  vinham  de escapada
das forças legais, que nos puseram fora de campo de ação, em que operavam
os defensores da heróica e legendária terra do imortal Júlio de Castilho.


Nota: Extraído do livro Memórias do Araranguá Bernardino de Senna Campos
organizado pelo Padre. João Leonir Dall'Alba  _  paginas 170 e 171

Do mesmo livro:

Página "29"  _    Felizmente, no dia 4 de março tive ordem do Engenheiro-chefe
para ser desligado da estação e preparar-me para seguir para Torres, junto com
com uns oficiais da Divisão o General Artur Oscar, que estacionava naquela loca
lidade, cuja  oficialidade,   licenciada na Capital, teve ordem de  regressara seus
corpos. Entre eles,   inclusive estava o Major    Firmino L. Rego,  filho de  Santa
Catarina.

                   Remoção para Torres
                   Como disse acima, fui removido para Torres a 4 de março de 1894. 
Embarcamos no dia 6 do mesmo mês, às 6 horas da manhã, no trapiche do Arse
nal da  Guerra, conjuntamente com 25 oficiais  do exército e  muito   fardamento,
armas e munições para a Divisão.
..........................................................................................................................
                    No vapor "Frederico Hanse"
                    Tendo comparecido ao  nosso  embarque  o  Dr.  Júlio de Castilho,
 Presidente do Estado, o Eng. Dr. a. Guilon, e algumas outras autoridades, ........

Página "33" _ Chegamos à vila de Torres, às7 horas da noite, do dia18 de março
de 1894.  Saiu nesta     ocasião uma carreta, conduzindo o  General  Artur Oscar
comandante  da  divisão  do  centro, estacionada  em  Torres, que ia doente para
Porto Alegre, passando o comando para o Coronel Salustiano............................
                     A Vila de Torres é pobríssima e está situada em cima de uns  roche
dos junto ao mar. São três montes que se erguem na praia isolada, sendo o do nor
te onde está edificada a vila.................................................................................
....fundos assobradas e dão para uma lagoazinha que há abaixo do dito monte. em
 cima deste está edificada a igreja de São Domingos das Torres, padroeiro da vila.
                   Há umas casinhas  ao norte  dela, ao  norte da  vila 2  quilômetros, no
 lugar que chamam Potreiro, passa o rio  Mampituba, que faz divisa com o municí-
pio de Araranguá, em Santa Catarina.
                      ..........................................................................................................

                       Divisão do Centro _ Artur Oscar

                       Estacionava naquela ocasião,  em Torres,  uma coluna do exército com
 2000 homens, composta do 4°, 11°, 25° Batalhões, tendo a totalidade da oficialidade
 do 25° catarinense. Estavam ali para guarneceras fronteiras do estado.
Página" 34" _   Na estação de torres, a qual  estava instalada a primeira casa da vila, ao sul,  com  fundos para lagoa, havia, como carteiro, um bom  pardo, chamado Lourenço.Este obteve - me pensão em casa de  um velho  negociante da capital, que estava com negócio ali e era fornecedor da divisão chamado Leonidas Brandão, pagando 50 mil-réismensais visto não haver hotel em Torres. Isto para as refeições.
....................................................................................................................................
                        Em Torres travei relações com todos os oficiais, especialmente do 25°,
e com alguns catarinenses foragidos ali, vindos de Laguna, Tubarão e Araranguá, entre
eles o Dr. Polidoro de Santiago, que morava na  Laguna.  Na margem esquerda do rio 
Mampituba,  pouco  distante,  estava  acampado  um  corpo  cívico  de  200  homens, 
organizados na Vila de Araranguá, pelo filho daquele  lugar,  Apolinário  João  Pereira,
que era comandante com o título de Coronel.
                       Todas as tardes, quando estava de folga, passeava a cavalo com alguns
 oficiais. As vezes transpunha o Mampituba e vinha beber em Santa Catarina.
                       A  esquadra dos  revoltosos,  tentando uma  última cartada, atacaram a
 cidade de Rio Grande de que foram rechaçados. A divisão teve, na tarde de 4 de abril
de 94, a ordem de seguir para o sul, isto é, para Porto Alegre. Com eles eles seguiu  o
 meu fornecedor Brandão.  Passei a comer em casa de uma  viúva de que  morava em
 frente a uma estação, pagando 60 mil-réis mensais.

                       Regresso da Divisão a Porto Alegre

                       Partindo a Divisão na manhã de 6 de abril, debaixo de música, toque 
de corneta,  foguetes,  mulheres e crianças montadas   em  bois, cavalo magros,  etc., 
parecia um bando carnavalesco. Ficou a vila de Torres tristíssima, só com  os poucos
 moradores, e,  guarnecendo-a, o 16° Batalhão da Guarda  Nacional,  organizado ali 
 mesmo, sendo comandado pelo Coronel Capa Verde,que foi meu colega telegrafista.

 (...), vermelho e malacara, pela quantia de 4 mil-réis, a uma viúva por nome Laudilina 
 Freitas. engordei - o e serviu  para conduzir -me a Santa Catarina.

         Pág 37; Tendo tomado gosto pela equitação, visto, visto muitos passeios que
 fazia em animais emprestados,  especialmente um do guarda do sul, Ernesto, resolvi
comprar um cavalo de trote terminada a revolução. Caiu Santa Catarina em  poder               ???
 do governo legal em 16 de abril. Desligou-se a Divisão do Corpo cívico de  Araran-
guá e preparava - se para  retornar a essa vila, Tubarão  e  Laguna.  Estava  fechada 
estação de Araranguá, distante de Torres dez léguas,
                        A dita estação de Araranguá teve poucos dias de existência. Quando  a  Divisão  do  General  Artur  Oscar  passou  por  ali, desmontou  e  trouxe parTorres o aparelho e mais material.

          página 40 _            Remoção para Santa Catarina
                               Só  a 18 de maio de 1894, é que o senhor-engenheiro chefe  do
Distrito do  Rio  Grande  resolveu avisar ao encarregado de Torres a minha remoção
 para o distrito de Santa Catarina,.............................................................................
                                Nos  fins  de  maio  chegou  a Torres, vindo de Porto  Alegre, o
 sargento do 25°Batalhão, Geraldo Azevedo com duas praças, conduzindo os animais
do Major Firmino Rego, para Desterro......................................................................
Combinamos irmos juntos no dia 1° de junho de 1894.

                                            xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
                       
                                   Sobre Bernardino de Senna Campos 
              Nascimento 20-05- 1873 em Desterro e ali morou até os 18 anos.Após e na ordem  morou, em Santos, São Paulo, Ribeirão Preto, Porto Alegre, Rio Pardo, Torres, Araranguá; e sempre trabalhou como telegrafista nas cidades em que  passou.  Era funcionário público.  Em sua passagem  por Torres, como não podia deixar de  ser, era um arauto do poder. Em  1936 ainda estava vivo.

            No livro "História do Grande Araranguá", de autoria do padre Leonir Dall'Alba pagina"71" temos o seguinte depoimento de Alírio João Campos em "13/09/1896:  
            Meu tio Bernardino (de Sena Campos) era um homem muito arriscador (???). Uma vez encomendo uns móveis que vinham num vapor. Foi esperá-los com sua lancha na barra. Os que tomavam conta da barra tinham feito sinal que a barra estava impraticável por falta de fundura. Aí o meu tio trocou a posição da bandeira fazendo sinal para o navio passar. O navio entrou na barra abrindo um valo na areia, os da sinalização ficaram danados.




     


segunda-feira, 25 de junho de 2012

O PAU DO BARCO

                                     "Dentro de mim há pássaros que cantam
                                     E eu me sinto cansado de partir
                                     Sou homem _ mas não sei para onde ir
                                      Sou pássaro _ não sei por que me espantam"
                                                                      de  Sélesis _Carlos Nejar
                 
                
  
                  Dizem que num  tempo antigo, em um lugar distante, costa litorânea lá perto do fim do mundo, aconteceu que uma embarcação a vela, envelhecida e  de médio porte, fora jogado por uma tempestade na beira da praia deserta. Ninguém ficou sabendo se no barco havia uma tripulação; nunca se ouviu alguém comentar de onde poderia  ter vindo e nem para onde se dirigia.
                                                                                                                                                                                        Ninguém reclamou seus mortos, nem mesmo  cargas que poderia estar transportando. Há quem fale que o barco transportava um tesouro imenso; outros falam que era uma preciosa carga de contrabando. Uma versão mais moderna fala em drogas, claro que se sabe que no tempo antigo não havia muita preocupação com esse tipo de coisa.     
                 Durante muito tempo a inclemência e a impiedade das ondas  bateram muito forte naquele pobre e velho barco. O grande mastro quebrou e depois ninguém sabe onde foi parar. O cordame e o velame o tempo e os ventos fizeram desaparecer. E o vento, o mesmo vento que lá longe naquele tempo distante causara a tempestade, depois, sem dó, as vezes de uma maneira suave e outas vezes com uma violência descomunal, jogava uma areia fina nas entranhas daquele cadáver náutico que misturada com a água do mar formava uma camada compacta como para sufocar  objetos pessoais ou possíveis tripulantes, mas quando o primeiro ser humano avistou o barco já se havia passado longos anos, parecia mais o fantasma de um barco e por isso o batizou como O Barco Fantasma. Depois disso as autoridades estiveram lá;  algumas fotos, alguns apontamentos, e nada mais. Nenhuma nota nos jornais, parecia mesmo um barco fantasma.
                Mas como os tempos andaram,  o fim do mundo já não estava tão longe e os boatos correram mais rápidos,  dizem que as vezes nas noites de lua cheia era comum quem passava pelo local ver um velho pirata, olho de vidro, cara de mau e perneta, com seus longos cabelos e barbas, emplastados pela salmoura, enfrentando as ondas e em prantos e aos berros gritava: Netuno, Netuno, porque me abandonastes.
              Dizem, também, que as vezes foi visto uma multidão de desgraçados, dançando como uma legião de demônios, uma dança fantasmagórica que pareciam içar velas em  um barco imaginário, puxando cordas que não existiam, clamando para um deus que não os escutavam. Mas há os mais videntes  que dizem que realmente vêem um barco na tempestade e que sossobra; um velho pirata comandante com uma perna de pau, meio cego e sua tripulação. E quando um vidente se enchia de coragem e se aproximava daquela aparência e sentia o vento uivante e o borrifo das ondas gigantes, percebe, apenas, que tudo era nada.
                 Há outros que falam que os homens do governo na verdade não eram homens do governo, mas que eram caçadores de tesouros e que talvez tenham vindo de uma terra distante, talvez do estrangeiro, talvez guiados por sonhos e que tinham aparelhos e conheciam benzeduras e eram mais malvados que os piratas e que praticavam uma feitiçaria moderna chamada política. E esses homens vieram em uma "sexta feira treze" à meia noite, em uma noite sem lua e trouxeram escravos, e fumaram ervas fedorentas, e tomaram bebidas amargas e sacrificaram animais e cavaram em torno do barco e encontraram um tesouro. Toda essa gente, com exceção dos escravos é claro, eram fortes candidatos ao fogo que nunca se apaga. Mais tarde, quase no nosso tempo, em torno daquele lugar, formou-se uma pequena aldeia de pescadores e mais longe se percebia vultos fumacentos de cidades.  
                 Na aldeia um jovem solitário e doente pescador que sofria de uma doença terrível, numa noite de lua cheia, cansado de tanto sofrer, sai pela beira do mar a procura da morte; e lá longe, bem distante da aldeia,  encontra os restos do velho barco fantasma. Na verdade era apenas um pedaço da   quilha do barco, muito enterrada na areia que teimava em resistir ao tempo, ao vento e ao mar; o jovem pescador, com seus olhos enevoados  e doentes, nota que a quilha aponta para o mar. E o  jovem, apoiado na quilha e com as ondas do mar a lamber seus pés, passa a procurar um ponto no mar, o ponto em que a quilha apontava; e de repente, para o seu espanto, vê uma veleiro  antigo, no meio de uma tempestade, mas que resiste a fúria dos ventos e do mar. Para  sua surpresa a  embarcação imbica a seus pés. E eis que descem da nau  um velho marinheiro, perneta, meio cego, longos cabelos e barbas emplastados pela salmoura, garrucha  enferrujada à cintura, adaga à mão e ladeado por marujos. 
                     O jovem logo viu não se tratar da morte, pois ele sabia desde criança que a morte não usa garrucha na cintura  e nem adaga. Usa apenas uma foice na sua lida, sem fim, de ceifar os homens e é solitária; também, nunca ouviu dizer que a morte gostasse de andar de barco nas tempestade. Mas o jovem pescador percebe que o marujo e sua tripulação são fantasmas, pois eles caminham sobre as águas. E  escuta daquele espírito maior  que há muito tempo ele, o espírito, perdera um barco numa tempestade e que aquele pau em que o pescador estava apoiado era o que sobrou do seu barco. Mas agora ele vinha de um outro mundo, de um mundo que fica lá no fundo do mar. O jovem pescador  fica espantado porque o  espírito  diz que o seu mundo fica lá no fundo do, mar mas com a adaga aponta para o céu.
                       O Fantasma Comandante continua falando e diz que quando perdeu o seu barco foi por um erro dos deuses; mas que os deuses reconhecendo o erro  o recompensaram;   agora, junto com a sua tripulação, tinha o domínio das tempestades sobre o mar. O pescador fica mais assustado quando vê uma tempestade que desce do céu e leva o barco e sua tripulação pelos ares e consegue notar que o Espirito Comandante é um fantasma que usa a sua adaga, como uma varinha mágica, para comandar o seu barco e a tempestade. E com o olhar fica acompanhando o barco até que ele desaparece atrás da Lua.
                Após algum tempo meditando sobre o que vira e acompanhando a Lua no seu lento movimento  que agora aparece entre grossas nuvens tocadas pelo vento; nota lá no horizonte o céu e o mar se envolvendo em um abraço como dois gigantes que fazem amor; o jovem pescador volta para sua aldeia, em uma das mãos um farelo da quilha do barco que por instinto lança a boca. Não se lembrava mais da morte, mas tem a nítida impressão que, do alto, alguém o observa. Olha para cima , mas vê  somente a Lua; as nuvens o vento se encarregara de soprar para longe e as estrelas são frágeis pontos de luz no firmamento. 
                     E a partir dessa noite, o jovem pescador passa os dias apenas esperando o Sol se esconder no poente para caminhar pela praia deserta até a quilha do Barco Fantasma pensando encontrar novamente o Fantasma Perneta, o seu barco e a sua tripulação. Nunca mais o encontrou, mas, também,  nunca mais pensou na morte, e  todas as noites vinha com um  farelo da quilha na boca como se fosse um caramelo. Um dia o jovem percebeu que o seu mal tinha desaparecido e após muita meditação concluiu que a cura estava naquele farelo da quilha do barco que involuntariamente colocava na boca. O farelo do barco fora o seu linimento. O jovem pescador fala para os aldeões de sua cura e do linimento da sua cura. Os nativos da aldeia já há algum  tempo haviam notado a melhora da saúde do jovem e também a sua esquisitice e sua solidão; dormia de dia e passava as noites caminhando na praia.
                    Os aldeões, agora, passam a escutar aquele jovem  e saudável rapaz que com antigamente se tornara, de novo, social e comunicativo. As histórias do rapaz  criaram asas e voaram alto e com a ajuda dos ventos percorreram o mundo. E agora nos nossos dias, lá naquele lugar em que  está parte da quilha do Barco Fantasma se reúnem gente de todo o mundo, em procissão, a procura de curas para os seus males, a procura do linimento que é apenas um farelo da quilha do barco. O local agora recebeu um nome e é conhecido como  a Praia do Pau do Barco Fantasma.
                  Dizem que muitas curas, muitos milagres aconteceram ali, mas havia também aqueles que não se curavam. Entre os que não se curavam estavam uns que pegavam mais que um farelo e com pensamentos comercias. Outros é porque o mal era de outras vidas e teriam que voltar em uma noite de Lua cheia. Falam, também, que muitos ao verem o pau do barco se emocionavam a tal ponto que caiam mortos na areia e entre esses eram comuns as virgens encalhadas. Chegou um momento em que tantos eram os emocionados e emocionadas que espalhou-se um boato que o pau do barco estava matando mais do  que fazendo cura.
                 Um outro dia numa região, lá pras bandas das Arábias, um viajante  muito rico e que tinha um palácio e um arem e que falava muitas línguas,  antes da partir em viagens de negócio pelo mundo, resolve visitar um amigo que sofria de uma doença incurável. E ficou um tempão   escutando aquele pobre enfermo que só sabia se lamentar. Chegou um momento em que o viajante pergunta ao amigo: Meu amigo, o quê posso fazer para ajudá-lo? Ao quê o enfermo respondeu: __ Nada, meu amigo, porque o único remédio que pode me livrar do mal que me devora é o pau do barco. Mas esse remédio só existe em uma  terra  distante chamada Brasil, uma terra de muito Sol, uma terra que tem um povo  e uma língua maravilhosa. O viajante responde para o amigo: mas eu vou para o Brasil e já ouvi falar nessa história e vou visitar uma cidade bem próxima a essa região. Prometo que vou lá na Praia do Pau do Barco Fantasma e trago um farelo para o meu amigo.  E assim se despediu do seu amigo doente e partiu em suas andanças pelo mundo, inclusive Brasil.
                    Tempos depois nosso viajante ao voltar a sua cidade que fica lá pras bandas das Arábias, feliz da vida por retornar ao lar, a sua terra e a sua gente e ao seu arem, lembra-se do seu amigo doente e ao se lembrar percebe que se esqueceu do farelo do pau do barco. Mas não se preocupou pois a sua viagem demorou muito e o amigo, é claro, já devia ter morrido. Ledo engano. Na esperança da cura o enfermo resiste e aguarda. O viajante fica um tempo em silêncio, pensativo e de repente se ilumina. Junta um pedaço de pau no meio da rua e com o canto da unha tira um farelo e leva para o amigo doente. O enfermo,  sem saber da trapaça, vê o amigo  colocar o falso linimento em um vasilhame com um litro de água e manda o doente aguardar "24" horas e depois tomar uma colher de sopa por dia, e somente uma colher para não dar caganeira.
                  O doente sarou, o viajante poligota tornou-se um curandeiro e agora vive solitário numa caverna tendo por companheiros serpentes e morcegos.

                          Baseado em um conto popular e com bastante imaginação deste pobre escriba.